Pesquisar no blog

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E GEOGRAFIA: REFLEXÃO, ENSINO E PRÁTICA


O ensino de Geografia e a Educação ambiental estão diretamente ligados. É preciso problematizar as representações do meio ambiente de diferentes grupos sociais, permitindo aos alunos desvendar outras percepções de natureza para que se tornem agentes transformadores na sociedade





As contradições sociais e seus reflexos no ambiente urbano
Se você caminhar pelas ruas e avenidas de São Paulo (ou por outra cidade tão frenética como ela, que reproduz o modo de viver urbano), terá visões de contraste dos tempos sociais e ambientais. São Paulo, o ambiente urbano mais populoso do Brasil, tem uma aparência de opulência e escassez. Grandes prédios comerciais, shopping centers, construções em andamento, grandes redes de supermercados, uma arquitetura de vidros e metais e grandes espaços para os milhares de automóveis que trafegam dia e noite sem cessar. São Paulo ostenta a riqueza da antiga capital do café, da indústria, das finanças. A informática está em frenesi e, nos cenários metropolitanos, a internet conecta os consumidores, interliga capitais financeiros e torna o mundo conectado. Celulares e tablets por todo o canto colocam as pessoas nesse intenso movimento virtual.
Entretanto, nas diferentes paisagens veremos também uma São Paulo com favelas, edifícios de moradia popular, ar poluído, rios mortos cortando a paisagem e que desapareceram sob as avenidas. Uma cidade que bate recorde em desmatamento em direção às áreas dos mananciais. Milhares de pessoas pobres vivem nessa megacidade, que carece de trabalho digno, saneamento básico, água, escolas, áreas verdes, bibliotecas, equipamentos de saúde e outros itens indispensáveis à qualidade de vida urbana. Essa outra cidade mostra contradições que se expandem pela região metropolitana, a ponto de serem reproduzidas pela maioria dos grandes urbanos brasileiros. 
Sucessos econômicos e fracassos socioambientais são vistos hoje lado a lado em todo mundo. A prosperidade financeira sem precedentes, o surgimento de instituições democráticas em muitos países e o fluxo quase instantâneo de informações e ideias de um mundo recém-interligado nos permitem enfrentar desafios negligenciados durante décadas, mas ainda é possível identificar, apesar dos avanços, permanências e retrocessos em relação às questões socioambientais. Eles formam um pano de fundo interligado às determinantes do tecido social em quase todas as contradições já brevemente explicitadas.

Estudo de temas socioambientais estimula a formação de sujeitos críticos
Em estudos de Geografia, muitos conteúdos e objetivos sobre temas socioambientais podem potencializar a formação de sujeitos críticos e atuantes capazes de construir interpretações, entendimentos e protagonismo na realidade vivida.
Um balanço das questões socioambientais da atualidade nos leva a exigir uma forma nova de viver, que vá além dos elos comerciais e dos fluxos de capital. Uma simultaneidade entre solidariedade e equidade é o que se espera de uma formação ambiental. 
Como trabalhar na escola essas dimensões críticas da realidade, entrelaçando a Educação ambiental à Geografia, permitindo aos alunos atuarem na transformação da vida deles, dos lugares e das paisagens? Um dos maiores desafios dos educadores é ajudar os estudantes a perceber que existem percepções de natureza diferentes construídas por distintas sociedades, grupos e indivíduos, que se modificam histórica, cultural e socialmente. 
Essas diversas concepções podem gerar disputas no território, refletindo visões que vão além da ideia de natureza reduzida a recurso natural ou ativo econômico. Por exemplo: atualmente, os cidadãos de Belo Horizonte discutem a criação do Parque Nacional da Serra do Gandarela em territórios visados por exploradores de minério de ferro e onde vivem comunidades camponesas que produzem mel e dependem da vegetação local para o artesanato. Nessas serras, ocorre uma formação de cangas, que determinam a existência de ecossistemas únicos e com endemismos e permitem grande acumulação de água, um importante recurso para a capital mineira. As questões que envolvem os conflitos territoriais na Serra do Gandarela demonstram que as relações dos indivíduos e das sociedades com a natureza variam nos diferentes momentos históricos e nos diversos grupos sociais.

Diferentes concepções sobre a natureza geram conflitos
As sociedades modernas convivem atualmente com muitas percepções de natureza, mas podemos distinguir pelo menos duas no que se refere à valorização. Uma vê as configurações naturais como obstáculos ao progresso, enquanto outra as revalorizam, inclusive com base em argumentos científicos. A questão posta pela conservação das cangas e a exploração do minério de ferro na Serra do Gandarela exemplificam bem isso. Do mesmo modo que para uns a natureza pode ser depositária de crenças e espíritos, para outros é concebida na sua materialidade econômica, como fonte de recursos naturais para prover a vida humana e, sendo assim, uma mercadoria a ser explorada. 
As sociedades, os grupos sociais e os indivíduos têm necessidades e condições de exploração diferentes, além de representações diferenciadas da natureza. Para todas as formas de vida que compõem os ecossistemas da Serra do Gandarela, essas visões podem significar a sobrevivência ou o desaparecimento.
As disputas territoriais resultantes de diferentes visões de natureza estão em muitas situações que podem ser estudadas para que os alunos participem dos destinos de suas territorialidades. Isso mostra que estudar Geografia e questões ambientais é um entrelaçamento complexo, abrangente e que questiona os modelos de ocupação e apropriação da natureza pelas sociedades, as relações entre os homens e os modelos políticos e econômicos. Nenhuma questão com essa dimensão globalizante desenrola-se consensualmente. Estão em cena os modelos sociais, econômicos, políticos e existenciais e é por isso mesmo que os entendimentos, as interpretações, os posicionamentos e as ações resultam em diferenças, conflitos e controvérsias. Como organizar tudo isso para a sala de aula? Quais situações de ensino permitem a ampliação dos objetos de conhecimento?

Aulas que provoquem reflexões e novos entendimentos sobre o mundo
Para diversos professores, a seleção dos conteúdos de Geografia é um enorme desafio. Muitos estão habituados à sequência dos livros didáticos e trabalham automaticamente seguindo capítulos e mais capítulos. Porém, quando pensamos em outras intenções e intervenções que precisam ser realizadas para que a classe aprenda Geografia e meio ambiente, a escolha dos conteúdos torna-se uma necessidade mais abrangente e não linear.
Ao mesmo tempo, nos currículos escolares, as questões socioambientais padecem da visão atomística do mundo combinando racionalismo, fragmentação e compartimentação. A Geografia que se ensina nos bancos escolares e as noções de natureza transmitidas ainda são marcadas por forte tendência reducionista, revelando uma inadequação para o entendimento da complexidade dos temas socioambientais. 
Para enfrentar esses problemas, propomos um recurso de organização: os quadros de referência. Eles podem ser elaborados, a título de exemplificação, com base em duas perguntas. Podemos entender os processos naturais e seus padrões de transformações e projetar modos de vida dentro de contingências socioambientais? Como considerar todas as formas de vida e não apenas a humana? Para respondê-las, alguns pressupostos podem nos orientar: 
  • Difundir a concepção cíclica de tempo na qual o desenvolvimento envolva melhorias contínuas e a diferenciação dos recursos físicos, simbólicos, culturais existentes em vez da exploração brutal da natureza e das sociedades 
  • Tematizar sociedades que vivem essa concepção de recursos e que não consideram a natureza apenas como fonte de matéria-prima 
  • Reconhecer a interconexão dos fenômenos da natureza e da mesma forma, do impacto humano sobre o mundo natural, mesmo que a referência sejam os sistemas menos humanizados. - Reconhecer que o ser humano é parte implícita do mundo natural, indissociável e conectado ao seu funcionamento e ao seu destino 
  • Inverter o paradigma de entendimento do mundo como conjunto de objetos para interpretá-lo como uma comunidade de sujeitos 
Em resposta às questões propostas, vale considerar ainda que conservar ambientalmente é construir atitudes ao alcance dos alunos e que, além dos conteúdos entrelaçarem os objetos de conhecimento em Geografia, muitas habilidades têm de ser aprendidas, tais como ler imagens, registrar textos e ler e produzir mapas.

Problemas ambientais influenciam novas formas de ensinar Geografia
Em um trabalho realizado para conceber as orientações curriculares do Acre1, foram projetadas ideias de como isso pode ser organizado em quadros de referência. Utilizamos a mesma ideia para sugerir como fazer o planejamento de atividades. Entrelaçam-se conteúdos de Geografia e Educação ambiental para visualização de situações de ensino que podem ser desenvolvidas nos anos iniciais do segundo ciclo do Ensino Fundamental. Em colunas, devem ser listados: 
  • Os objetivos (as capacidades), por exemplo: compreender a importância dos fenômenos geográficos e suas representações na vida cotidiana para compreender a noção de natureza em diferentes grupos sociais. 
  • Os conteúdos (o que é preciso ensinar explicitamente ou criar condições para que os alunos aprendam e desenvolvam as capacidades), como identificação de características culturais, econômicas e ambientais do espaço vivido. 
  • As propostas de atividade (as situações de ensino e aprendizagem para trabalhar com os conteúdos), por exemplo: leitura de mapas, tabelas e gráficos sobre a formação e o povoamento da região em que os alunos vivem. 
  • As formas de avaliação (situações adequadas para analisar a aprendizagem conforme os objetivos propostos), como registro de observação utilizando pautas individuais com itens relacionados às expectativas de aprendizagem.
Quadros de referência constituem só um exemplo de organização que os professores podem utilizar para construir um panorama para suas sequências didáticas. 
A Educação ambiental tem várias dimensões, leituras e conceituações. Em Geografia, é possível estudar o meio ambiente com base nas representações sociais. Nelas encontramos os conceitos como foram aprendidos e internalizados pelas pessoas. Segundo Moscovici (1976), uma representação social é o senso comum que se tem sobre um tema, em que estão inclusos preconceitos, ideologias e características das atividades cotidianas (sociais e profissionais) das pessoas.
Não existe um consenso definido sobre meio ambiente na comunidade científica em geral. Supomos que o mesmo ocorre fora dela. Por seu caráter difuso e variado, a noção de meio ambiente é uma representação social. O primeiro passo para a Educação ambiental pode ser a identificação das representações das pessoas envolvidas no processo educativo.
Alguns educadores têm discutido se a Educação ambiental, como é praticada, promove uma ação de entendimento do mundo, particularmente das questões urgentes, e se constitui como tal. E muitos, conscientes da complexidade dos problemas socioambientais, afirmam que já mudaram suas práticas, pois reconhecem a escola como núcleo do pensamento livre, autônomo e crítico.



Referência
http://acervo.novaescola.org.br
Postar um comentário