Pesquisar no blog

domingo, 31 de março de 2013

BRASIL, CADA VEZ MAIS SECO


No Brasil, mais de 31 milhões de pessoas vivem em áreas sujeitas à desertificação, que tem início com a destruição da caatinga, mau uso dos recursos hídricos e a degradação do solo.


O ­fenômeno das secas no Brasil vem de tempos distantes e, o primeiro período de estiagem pode ter ocorrido entre os anos de 1583 e 1585, quando o padre Fernão Cardin relatou o que ocorria na região Nordeste do País: “(…)uma grande seca e esterilidade na província e que cinco mil índios foram obrigados a fugir do sertão pela fome, socorrendo-se aos brancos”. A seca nordestina já foi cantada em verso e prosa pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga, e por outros compositores oriundos da mesma região, mas a canção que retrata com um “q” de realismo o papel da sociedade e sua influência, por vezes, nefasta ao meio ambiente, é “Sobradinho”, letra composta por Sá e Guarabyra:

       “O homem chega, já desfaz a natureza / Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar / O São Francisco lá pra cima da Bahia / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar / E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato que dizia que o sertão ia alagar / O sertão vai virar mar, dá no coração / O medo que algum dia o mar também vire sertão”.

Os longos períodos de estiagem não castigam apenas terras brasileiras. Em 1930, os três anos de seca no meio oeste americano agravaram a degradação da terra. A partir dali deu-se início a uma série de estudos e pesquisas acadêmicas voltadas ao conhecimento dos processos de desertificação. Trinta anos mais tarde, o sahel africano é castigado pelo mesmo fenômeno, que resulta em mais de 500 mil mortes. A devastação dos recursos naturais e um modelo de desenvolvimento equivocado, é apontado por especialistas como uma das causas daquela seca. No final da década de 70, após algumas convenções internacionais, foi observada a necessidade de implantar uma política específica para as regiões semiáridas do mundo, tanto por suas características ambientais como pela situação geral de suas populações. Mas somente durante a Rio 92 os chefes de estados somados a organizações que trabalham com o meio ambiente evidenciaram o fracasso dos programas internacionais de combate à desertificação e decidiram mobilizar uma Convenção de Desertificação, que visava o comprometimento de todas as nações, particularmente dos países ricos, com a questão da seca.
Definição do termo
De acordo com o texto da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), desertificação é a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subsumidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e atividades humanas. O mesmo documento define que a degradação do solo é a perda ou redução da produtividade econômica ou biológica e da complexidade dos ecossistemas, causadas pela erosão do solo, deterioração das propriedades do solo e perda da vegetação natural.
No Brasil
Os últimos períodos de secas no nordeste brasileiro foram de 1981 a 1983, de 1992 a 1993 e do ano de 2002 a 2003 (em 2012 a região também sofre com a estiagem). As consequências da secas extremas durante a década de 70 e 80 foram à fome e o êxodo da população rural em direção ao sul do País ou às grandes metrópoles do nordeste, como Fortaleza, Recife e Salvador, todas localizadas no litoral. O “Polígono das Secas” abrange uma área de cerca de 940.000 km², envolvendo partes de quase todos os estados do Nordeste.  A agricultura ainda é à base da economia da região e que os períodos prolongados de secas reduzem a umidade do solo, acarretando enormes perdas às culturas. A perfeita compreensão do fenômeno das secas faz-se, portanto, extremamente necessária para o uso sustentável dos limitados recursos hídrico da região.
Entre 2006 e 2007 foram realizados estudos sobre os impactos das mudanças climáticas globais para diversas áreas do território brasileiro, como Amazônia brasileira, nordeste Brasileiro, Pantanal e Bacia do Prata, evidenciando as anomalias de chuva e temperatura, assim como balanço hídrico para o século XXI. Um dos apontamentos definidos nesses estudos foi uma diferença básica entre a seca e outras ocorrências naturais como cheias, furacões e terremotos, que iniciam e terminam repentinamente e se restringem, normalmente, em uma pequena região. Já a estiagem, quase sempre, tem um início lento, uma longa duração e pode alcançar uma área extensa.

As maiores secas que o Brasil já teve

1877 
Cerca de 500 mil pessoas morreram nesse ano por causa da seca. O estado mais atingido foi Ceará. O imperador dom Pedro II foi ao Nordeste e prometeu vender “até a última joia da Coroa” para auxiliar a população da região, mas não vendeu.
1915 
A longa estiagem fez o governo reestruturar o Instituto de Obras Contra as Secas (Iocs), que passou a construir açudes de grande porte.
1934/36 
É considerada a maior seca de todos os tempos até o início dos anos 80. A estiagem atingiu nove estados nordestinos e chegou até Minas Gerais.
1979/85 
A mais longa seca do século XX foi marcada por uma onda de saques que chegou ao auge em 1981. O presidente João Figueiredo declarou que só restava rezar para chover.
1997/99 
Os sinais mais graves da estiagem começaram a ser sentidos em outubro daquele ano. Na época, ocorreram saques em mercados, feiras e prefeituras das cidades sertanejas.
2001 
O Rio São Francisco sofreu com a maior seca da sua história. Somada ao assoreamento, a estiagem reduziu drasticamente o volume de suas águas. A barragem de Sobradinho, a mais importante da região, atingiu os níveis mais baixos de sua história. A água no local em 1º de novembro de 2001 estava a 6,3% da capacidade, que é de cerca 34 bilhões de metros cúbicos.
 
Extremos na Amazônia

Na cartilha “Mudanças de Clima, Mudanças de Vida” a organização não governamental Greenpeace estima que mais de 31 milhões de brasileiros vivem em áreas sujeitas à desertificação, em 1,3 milhão de km2. Na Paraíba, 70% do território, onde vivem 1,66 milhão de pessoas, já sofre com o problema. No Rio Grande do Norte, 97,5 % do território é vulnerável à desertificação. O relatório da ONG lembra que um aquecimento fora do normal nas águas do Atlântico Norte turbinou os furacões de 2005 e causou a pior seca em décadas na Amazônia, deixando comunidades sem água e sem comida. A navegação foi suspensa em diversas áreas. De acordo com o documento, houve um aumento de 300% nas queimadas no mês de setembro daquele ano. As chuvas só retornaram em outubro. Meses depois, a Amazônia foi exposta a outro extremo. Chuvas intensas no começo de 2006 provocaram uma forte enchente que invadiu casas de milhares de ribeirinhos.
As mudanças climáticas, segundo o Greenpeace, já ameaçam o regime dos rios amazônicos, que sobem na época da cheia e descem na época seca. Há um círculo vicioso na região. Ainda de acordo com a ONG, desmatamentos e queimadas geram 75% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, esse índice coloca o País na posição de quarto maior poluidor mundial, lançando entre 200 e 300 milhões de toneladas de carbono na atmosfera por ano. Isso intensifica o aquecimento global, que torna o clima mais seco na Amazônia. A floresta fica mais vulnerável ao fogo e à destruição. Parte da umidade da Amazônia é transportada pelas correntes de ar em direção ao centro-sul da América do Sul. As alterações no clima e o desmatamento na região amazônica diminuem a formação de nuvens sobre a floresta. Dependente dessas chuvas, a região sul do Brasil fica exposta a períodos de seca muito severos. Foi o que ocorreu no período de 2004 a 2006, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, que passaram por estiagens muito intensas. O Greenpeace observou que na safra 2004/2005, agricultores gaúchos enfrentaram a maior estiagem dos últimos 50 anos. A perda foi de 8,5 milhões de toneladas de grãos (soja, milho e feijão), com um prejuízo recorde de R$ 3,64 bilhões e 451 municípios em situação de emergência ou estado de calamidade.
Áreas degradadas
Em reportagem da Agência Brasil, publicada em julho de 2012 sobre os resultados das discussões feitas no 9º Simpósio Nacional de Recuperação de Áreas Degradadas (9º Sinrad), o diretor do Departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Fernando Tatagiba, estimou em 140 milhões de hectares o total de terras degradas no País. De acordo com o diretor, existem áreas degradadas em todos os biomas e regiões. Isso ocorre onde a ocupação humana é mais antiga, como é o caso da Mata Atlântica. Para ele, se as áreas degradadas forem recuperadas, não seria preciso derrubar mais nenhum hectare de floresta para agricultura e pecuária. Na mesma reportagem, o chefe do Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Agrobiologia), Eduardo Campello, diz que o Brasil já detém tecnologia própria para reverter a degradação das terras, por meio de processos de seleção e manejo e trocando produtos químicos por insumos biológicos. Dessa maneira, ele considera ser possível reduzir ou até reverter a derrubada de florestas para a agropecuária. O estudo sobre desertificação tem avançado no Brasil e no mundo. Apesar de discordâncias nos métodos de indicadores, todas as pesquisas têm por finalidade servir de material para políticas públicas que trabalham na diminuição do avanço desse fenômeno, que tem afligido o País durante décadas. Visto que além do aspecto ambiental a seca atinge diretamente famílias que vivem em regiões atingidas fortemente pela estiagem e que, com certeza, desejam que a canção de Sá e Guarabyra se torne um passado distante e que o mar continue sendo mar e o sertão altere sua seca realidade.
Áreas onde o problema da desertificação é mais acentuado são chamadas de núcleos de desertificação, sendo reconhecidas pelo ministério do meio ambiente as seguintes:
1 - Núcleo do Seridó, localizado na região centro-sul do Rio Grande do Norte e centro-norte da Paraíba, abrangendo uma área de aproximadamente 2.341 Km², envolvendo vários municípios em torno do município de Parelhas;
2 -  Núcleo de Irauçuba no noroeste do estado do Ceará abrangendo uma área de 4.000 Km² incluindo os municípios de Irauçuba, Forquilha e Sobral;
3 -  Núcleo de Gilbués no Piauí, com uma área de aproximadamente 6.131 Km² envolvendo os municípios de Gilbués e Monte Alegre;
4 -  Núcleo de Cabrobó em Pernambuco que totaliza uma área de 5.960 Km² abrangendo os municípios de Cabrobó, Belém de São Francisco e Floresta.
Extensão da desertificação no mundo
1) A desertificação atinge 33% da superfície emersa do planeta.
2) As áreas afetadas pelo fenômeno abrigam mais de 2,6 bilhões de pessoas, 42% da população mundial.
3) Cerca de 22% da produção mundial de alimentos são oriundos de áreas susceptíveis a desertificação.

Histórico da desertificação no Brasil
1960 – 1970 
O crescimento da produção agrícola regional caracteriza-se pela incorporação de novas terras e pelos financiamentos da SUDENE. Agricultura tradicional e baixo nível tecnológico.
A partir de 1970 
Uso intensivo na aplicação de capital, especialmente na bacia do Rio São Francisco. Agricultura irrigada, intensiva em capital, mas sem o adequado manejo.
Consequências
Contribuindo para o aumento dos níveis de degradação ambiental, como mostram os dados sobre a salinização dos solos em algumas áreas do Vale do São Francisco, e a evolução da produtividade agrícola, que vem decrescendo a taxas médias de 1,8%/ano.
As 5 principais causas da desertificação
1.       Extrativismo Vegetal  e Mineral
2.     Desmatamento desordenado
3.     Queimadas
4.     Indústria 
5.     Agricultura  - Uso intensivo do solo na agricultura, irrigação mal conduzida, manejo e utilização incorreta do solo (salinização).



fonte: revista geográfica/revista época/ MMA/geografiauol
Postar um comentário