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quinta-feira, 16 de maio de 2013

ARAL - O MAR QUE VIROU DESERTO

Um projeto de irrigação soviético que desconsiderou o estudo do impacto ambiental no desvio de águas de dois rios acabou provocando uma catástrofe ambiental sem precedentes. Veja o que aconteceu com o Mar de Aral.






UM DESASTRE ANTRÓPICO
Há milhões de anos, o noroeste do Uzbequistão e o sul do Cazaquistão eram cobertos por um volumoso mar interior. Quando as águas retrocederam, deixaram uma larga planície de terra altamente salina. Do arcaico mar sobrou o Mar de Aral, o quarto maior corpo interior de água no mundo. O Mar de Aral é um mar de água salgada interior, sem saída. É alimentado por dois rios, o Amu Darya e Syr Darya. A água fresca destes dois rios garantia a alimentação e os níveis de salinidade em equilíbrio perfeito. Nos idos de 1960, o governo central soviético decidiu tornar a União Soviética autossuficiente em algodão e aumentar a produção de arroz. O governo central então decidiu que a água adicional necessária ao projeto agrícola seria captada nos dois rios que alimentavam o Mar de Aral. Assim, nos dois rios, foram construídas grandes represas e um canal central com 1.368 km, dotado de um sistema de canaletas de distribuição de longo alcance. Quando o sistema de irrigação foi finalizado, milhões de hectares foram inundados em ambos os lados do canal. Nos 30 anos seguintes, o Mar de Aral sofreu um grave decréscimo em seu nível de água, sua costa retrocedeu e sua salinidade aumentou. O ambiente marinho tornou-se hostil à vida antes florescente, dizimando plantas e animais. Como a vida marinha morreu, a indústria de pesca sofreu grandemente.

O MAR DE ARAL ENCOLHE
A estratégia soviética foi estruturada na construção de represas nos dois rios e na criação de reservatórios a partir dos quais 40 mil km de canais levariam a água às áreas de cultivo. Os campos floresceram, mas com áreas tão vastas de monocultura, os agricultores foram obrigados a usar enormes quantidades de defensivos químicos. E devido à irrigação o sal foi bombeado para a superfície do solo, onde foi-se acumulando. Quando a represa de Tahaitash foi construída no rio Amu Darya, perto da cidade de Nukus, o rio deixou de ter água para alimentar o Mar de Aral, centenas de quilômetros adiante. Para a surpresa dos habitantes de Muynak, o Mar de Aral começou a encolher. No princípio, pensou-se tratar de um evento temporário. Assim, dragou-se um canal até a costa que retrocedera para que os barcos pudessem continuar chegando ao mar e ancorar nos molhes. O pior é que os efluentes alcançaram o mar com uma mistura mortal de sal e pesticida oriundos das plantações de algodão. Os bancos pesqueiros declinaram e quando o canal atingiu 30 km de comprimento e o mar continuou encolhendo, os barcos foram abandonados, jazendo como grandes leviatãs nas areias que uma vez foram o fundo de águas piscosas. O Mar de Aral foi uma riquíssima fonte de peixes. Os biólogos haviam identificado cerca de 20 espécies, inclusive esturjão e peixe gato. Muynak, situada na extremidade do mar, era uma cidade pesqueira, que também atraía turistas às suas paisagens litorâneas. Hoje, Muynak está encravada no deserto, distante mais de cem quilômetros do mar. Os únicos vestígios do outrora próspero centro pesqueiro são as carcaças dos velhos navios enferrujados e uma antiga instalação de processamento de peixe.
CONSEQUÊNCIAS DO DESASTRE ECOLÓGICO
O mar encolheu em dois quintos de sua dimensão original e, agora, de quarto maior lago interior do mundo, passou a ser o décimo. O nível da água desceu 16 metros e o volume reduziu-se em 75%, uma perda equivalente à soma total da água dos lagos Erie e Huron. A consequência ecológica foi desastrosa e, para os habitantes da região, os problemas econômicos, sociais e de saúde atingiram o limite do catastrófico. Todas as 20 espécies de peixes do Mar de Aral extinguiram-se, incapazes de sobreviver à lama tóxica e hipersalina.
Com frequência, as alterações ambientais em uma dada região acarretam uma série de graves consequências. Abaixo, as mais relevantes perdas devido ao encolhimento do Mar de Aral:
  • Como a água dos rios foi sifonada para o cultivo do algodão, a água do mar tornou-se muito mais salgada.
  • Como um enorme volume de água foi desviado dos rios, o nível do mar diminuiu em mais de 60%.
  • As fontes de água potável também diminuíram e foram contaminadas com pesticidas, agrotóxicos, bactérias e vírus.
  • As culturas de algodão e arroz fizeram uso de pesticidas altamente tóxicos e de outras substâncias químicas prejudiciais. Durante décadas, esses compostos químicos depositaram-se no Mar de Aral.
  • Hoje, quando o vento sopra sobre o que agora é o fundo do mar seco, essas substâncias químicas tóxicas são espalhadas pela região.
  • Os lagos e mares tendem a moderar o clima. Ou seja, as terras próximas a um corpo de água tendem a ficar mais mornas no inverno e mais frescas no verão do que as terras situadas longe da água. Como o Mar de Aral perdeu água, o clima tornou-se extremo.

Assim, um meio ambiente multissecular desapareceu em poucas décadas. A vasta área de solo oceânico agora exposto está envenenada pelos pesticidas. E o vento gera tempestades de pó carregadas de sal e de substâncias tóxicas sobre centenas, senão milhares de quilômetros. A cada ano, estima-se que 75 milhões de toneladas de pó tóxico e sais sejam pulverizados sobre a Ásia Central. Se o Mar de Aral secar completamente, 15 bilhões de toneladas de sal serão deixadas à flor do solo. Em 2001, o Banco Mundial custeou a construção do dique Kok Aral, de 12,87 km de extensão, para separar o Aral Norte do Sul. Objetivo: salvar a porção norte menos poluída. Desde a conclusão da obra, em 2005, o Mar de Aral Norte recomeçou a crescer. Consertos e atualizações na ineficiente rede de canais da era soviética também ajudam a rejuvenescer o Mar de Aral Norte.


fonte: revista cidadania&meioambiente

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