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domingo, 9 de dezembro de 2012

O QUE ESTÁ HAVENDO COM O CLIMA?


Seca, enchentes, nevascas... O que está havendo com o clima?
Não é de hoje que é impossível prever e controlar o tempo. Não é de hoje também que tragédias naturais matam muita gente. Será que você não devia estar mais preocupado com isso?
 



Chuva no Nordeste, seca no Rio Grande do Sul e nevascas no Egito. Invernos quentes e verões frios. O clima no mundo parece ter enlouquecido. Pesquisas recentes atestam que os eventos climáticos extremos, que fogem à normalidade, foram mais frequentes nas últimas três décadas. Comparados ao comportamento “normal” do clima, aquele baseado no relato de nossos avós e bisavós, esses acontecimentos parecem inéditos. Mas não são. A história do clima, como você verá, é bem mais atribulada.

CLIMÁTICA EXTERMINOU  POPULAÇÃO HUMANA

Os primeiros colonos ingleses na América do Norte se instalaram em 1587 na ilha de Roanoke, Virgínia, costa leste dos Estados Unidos. Era uma gente corajosa. Eles sabiam que, como a Inglaterra estava em guerra, tão cedo não haveria barcos para visitá-los. Teriam que viver com os frutos da terra. O novo mundo parecia promissor e a tarefa não soou impossível. No entanto, quando o primeiro navio de suprimentos voltou, três anos depois, sua tripulação teve uma surpresa: os colonos haviam sumido. Não sobrara ninguém para contar o que houve. Ninguém, exceto as árvores do local. Foi há apenas 20 anos, observando a espessura de seus troncos, alguns com 800 anos de idade, que os cientistas decifraram o que houve em Roanoke quatro séculos atrás. A tragédia, concluíram, foi causada pelo clima: entre 1587 e 1589 ocorreu a maior seca dos últimos oito séculos em Roanoke. Os colonos haviam chegado bem no começo da estiagem. Morreram de fome.
Os maias, que dominaram a América Central até o século VIII, sumiram do mapa durante uma forte seca, segundo nos contam sedimentos depositados no fundo dos lagos da região.
Os acadianos, que formaram a primeira cidade na Mesopotâmia, há 4 100 anos, também foram vítimas do clima, devido a uma seca provocada pelo esfriamento das águas do Atlântico Norte. Como os cientistas descobriram isso? Primeiro, encontraram, nos sedimentos do Golfo de Omã (entre o Golfo Pérsico e o Mar da Arábia), grandes quantidades de poeira vinda da Mesopotâmia naquela época. Ou seja, o clima estava árido. Sabe-se também que, naquela época, houve um esfriamento no Atlântico Norte, que reduziu a temperatura das águas entre 1ºC e 2ºC. Os instrumentos de medição atuais mostram que, quando o Atlântico Norte esfria, diminui o suprimento de água na Mesopotâmia.

Essas desgraças do passado permitem duas conclusões

A primeira é que não há nada de inédito nas tragédias que vivemos hoje. Os desastres dos maias e dos acadianos foram causados por eventos de uma intensidade que o homem moderno nunca viu, mas é 100% certo que tais catástrofes ocorrerão novamente, segundo Peter deMenocal, da Universidade de Columbia, Estados Unidos, um dos maiores especialistas em clima no mundo. “Secas com duração de vários séculos são raras, mas fazem parte da variabilidade natural.”
A segunda conclusão é que, embora naturais, esses eventos climáticos radicais são, de fato, ameaçadores e podem causar grandes danos. Estamos, então, correndo o risco de extinção? Nem tanto. Mas, sem dúvida, há com o que se preocupar. Sociedades complexas são capazes de se adequar a alterações climáticas, mas não são infinitamente adaptáveis.

Porém, há no horizonte uma mudança climática importante que foge à variabilidade natural do clima: a Terra está esquentando. Os cientistas divergem sobre as causas e os efeitos da alteração, mas sua existência é um consenso em 100 anos, os termômetros subiram 0,5ºC, em média. Não é pouco. Durante a última era glacial, que terminou há 10 000 anos, a temperatura do planeta era apenas 3ºC mais baixa que hoje, mas o gelo ártico chegava à Grã-Bretanha. Nos últimos 50 milhões de anos, todos os vai-vens do clima, o início e o fim das eras glaciais, foram disparados pelo Sol. É que, embora não se perceba a posição do Sol em relação à Terra varia levemente ao longo de milhares de anos e isso muda a quantidade e a distribuição da energia que o astro emite sobre o planeta. Uma das mudanças, por exemplo, é no eixo de inclinação da Terra em relação ao Sol, que varia a cada 41 000 anos. Isso altera a incidência de luz solar sobre certas áreas do globo, o que acarreta mudanças por aqui. Faz muita diferença se a área mais iluminada é um oceano ou terra nua, por exemplo.

Na Terra, três fenômenos acompanham esse balé solar
São eventos independentes, ocorrem de forma simultânea e se intensificam mutuamente.
O primeiro ocorre nos oceanos. Quando a água esquenta, ela perde a capacidade de reter gases, entre eles o gás carbônico (também conhecido como CO² ou dióxido de carbono) dissolvido. Cerveja quente não faz mais espuma? Pois então: aquelas borbulhas também são gás carbônico. E há gás de sobra para ser liberado. Há, hoje, dissolvido nos mares, 50 vezes mais CO² que a quantidade existente na atmosfera. E daí? Daí que, na atmosfera, o dióxido de carbono é um dos mais importantes agentes do efeito estufa. Agindo nas camadas superiores, o CO² aprisiona a energia do Sol e aquece a Terra . Por conta disso, a concentração de CO² sempre acompanhou o clima: nos períodos mais quentes, havia muito gás carbônico no ar; nos tempos mais frios, pouco. Assim, quando o oceano libera o dióxido de carbono, o resultado é mais aquecimento.
O segundo gatilho é disparado quando o  calor aumenta a evaporação de água,  , pois o vapor de água é um gás do efeito estufa ainda mais potente que o gás carbônico. Conclusão: ainda mais calor. Por fim, derretem-se as calotas polares, que refletem 70% da luz solar que recebem. Qualquer superfície que as substitua água, terra ou vegetação refletirá menos luz (mais fervura). Esse círculo vicioso só pode ser interrompido por uma nova mudança do ciclo astronômico.
O terceiro é a queima de combustíveis fósseis. A  novidade é que, pela primeira vez, está havendo uma mudança climática global em que o Sol não é o ator principal. “A maior parte do aquecimento observado nos últimos 50 anos se deve ao aumento da concentração de gases estufa”, diz o relatório IPCC. Ou seja, o aquecimento atual não foi disparado pelos ciclos astronômicos, mas pelo gás carbônico, cuja concentração atual no ar é  seguramente a maior dos últimos 400 000 anos. Tudo graças (carvão, petróleo), que, desde o início da Revolução Industrial, aumentou 600 vezes a emissão de CO² na atmosfera, de 10 milhões de toneladas por ano para 6 bilhões de toneladas anuais. Quando queimamos petróleo e carvão, devolvemos à atmosfera uma reserva de carbono que vem se acumulando há bilhões de anos e que, sem nossa ajuda, não voltaria ao ciclo natural.
Bem, e quando começam os efeitos do aquecimento? 
Para alguns, as maluquices climáticas atuais já são consequência do calor extra. Mas a maioria dos cientistas é mais cautelosa em suas conclusões. Diz-se que o estudo do clima é complexo, envolve muitas variáveis e que uma verdade hoje pode ser um fiasco amanhã. Por enquanto, os especialistas só admitem o óbvio, como a elevação da superfície dos oceanos, que foi de 10 a 25 centímetros no século passado. Mas há outros sinais mais sutis. A nebulosidade, por exemplo, aumentou. Por sua vez, a cobertura de neve diminuiu ao menos no Hemisfério Norte, onde o assunto já foi pesquisado: uma queda de 10% nas décadas de 70 e 80. Ainda no Norte, na década de 80 o outono chegou mais tarde, o que ampliou em 12 dias o período de crescimento vegetal. Resultado: o Norte ficou 10% mais verde no verão em comparação com a década anterior. Ou seja, em certas áreas, o aquecimento pode significar um aumento da cobertura vegetal em vez de devastação e desertificação, como é de supor à primeira vista. Quando ocorrem grandes mudanças ambientais, sobrevivem as espécies com maior capacidade de adaptação. A raça humana, que já sobreviveu a uma era glacial, tem grandes chances de superar mais essa mudança, mas alguns ficarão pelo caminho: os mais pobres. O aquecimento, por exemplo, deve mudar o regime de chuvas, causar fome e quebras de safra. Para muitas espécies, no entanto, o trauma deve ser maior. Entre outras mudanças, o aquecimento está empurrando as zonas climáticas em direção aos polos, ou seja, áreas hoje ocupadas por florestas temperadas poderiam ter clima propício para matas tropicais.  Sem ter para onde ir, essas formas de vida simplesmente deixarão de existir, em uma perda importante de biodiversidade e um enfraquecimento da rede da vida.  Os ecossistemas seriam simplificados. Os parques e as reservas naturais, imobilizados em suas fronteiras atuais, restariam inúteis. Mas tudo isso são hipóteses. No atual estágio do estudo do clima, não é possível fazer mais que isso.
Saiba o que impulsiona e o que ameaça as correntes marítimas
LUTA ETERNA
As águas se movem ao tentar equilibrar as diferenças de salinidade e temperatura dos oceanos. Um ciclo dura 1 000 anos.
A BOMBA
A água quente corre pela superfície. A fria, pelo fundo. O Mar do Labrador é o único lugar do mundo onde a água esfria e afunda. Isso impulsiona o sistema.
O PERIGO
Teme-se que o aquecimento derreta gelo demais e impeça o afundamento. A Corrente do Golfo, cujo volume é 800 vezes maior que o do Amazonas, não chegaria à Europa. O continente esfriaria, porque as correntes quentes liberam energia nas regiões frias

Cronologia do clima

4,6 bilhões - O planeta se forma. A atmosfera tem muito dióxido de carbono e quase nenhum oxigênio. A temperatura na superfície é de 1 0000C.
4,4 bilhões - A crosta da Terra endurece. Nascem os oceanos
4 bilhões - Fim da chuva de meteoros que assolou o planeta
3,5 bilhões - Nos oceanos vivem bactérias que fazem fotossíntese e substituem o CO2 do ar por oxigênio
2,2 bilhões - Pela primeira vez há oxigênio livre no ar. O nível de CO2 cai e o clima esfria. Começa a glaciação
550 milhões - O nível de oxigênio no ar sobe. Surgem os seres multicelulares e diferenciados
450 milhões - Uma glaciação mata 55% das espécies
250 milhões - A maior extinção da história. Hipóteses para o fato: impacto de um meteoro, erupções vulcânicas, gás venenoso saído do oceano. Morrem 90% das espécies marinhas
140 milhões - Reinado dos dinossauros. A temperatura é a maior desde a grande extinção (50C a 100C mais alta que hoje)
65 milhões - A poeira erguida pelo choque de um meteoro tapa o Sol, esfria o globo e mata os dinossauros.
3,6 milhões - O gelo cresce no Norte. O planeta esfria. A África seca e somem as matas onde viviam os hominídeos. Dessa crise surge o gênero Homo, adaptado para caminhar nos campos.
900 000 - O globo esfria e nasce um padrão: glaciações de 100 000 anos com pausas de 8 000 a 40 000 anos.
22000 - Começa a glaciação mais recente da história. 
18000 - A glaciação atinge seu auge. O gelo chega à Grã-Bretanha
10000 - Acaba a glaciação. As civilizações humanas se desenvolvem.
7000 a 5000 - Ocorre o período mais quente dos últimos 10000 anos. Florescem as civilizações humanas. Os oceanos eram 3 m mais altos que hoje.
1000 - A Terra se aquece de novo e permite cultura de uvas na Inglaterra.
600 a 150 - O Hemisfério Norte esfria. Em 1898, o Rio Tâmisa, na Inglaterra, congela pela última vez.
150 anos até hoje - A temperatura se eleva e preocupa os cientistas

fonte: superabril /revista brasileira de climatologia/www.sic2011.com/ www.xsbcg.com
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