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sábado, 9 de julho de 2011

VALE A PENA COMER UM TOMATE?

Vale à pena comer um tomate? Até o final do século XX a resposta dependia do conteúdo calórico e do esforço necessário para obter o alimento. No século XXI, essa equação já não é tão simples.
Imagine um homem primitivo que se alimenta do que encontra na natureza. Nesse caso a conta é simples: se a energia consumida em um tomate é superior a energia gasta para obte-lo, vale a pena comer o tomate. Se um tomate fornece vinte quilocalorias de energia e gastamos cinco quilos calorias para encontrar o pé de tomate, o resultado é que após o esforço lucramos quinze quilocalorias. Imagine agora que o pé de tomate esteja no alto de uma montanha. Após gastar duzentas quilocalorias para escalar a montanha, podemos saborear o tomate de vinte quilocalorias. O resultado é que vamos ficar com mais fome do que antes de iniciarmos a empreitada: um déficit de 180 quilocalorias. É claro que nunca os homens primitivos nem os animais pararam para fazer essa conta, mas, se a estratégia de alimentação de um animal não seguir esse modelo, ele simplesmente morre.
Imagine agora o processo decisório de um consumidor de tomates do século XX. Ele vai ao supermercado e descobre que o fruto de vinte quilocalorias custa equivalente ao salário de um dia de trabalho. Se ele gastar o salário com tomates, vai morrer de fome, pois seu poder aquisitivo não é suficiente para comprar tomates necessários para mante-lo vivo por um mês. Por outro lado, se o tomate custar o equivalente a um minuto de trabalho vale a pena comer o tomate. Na verdade, o cálculo de custo/beneficio é basicamente o mesmo utilizado pelo homem primitivo. O salário não passa de uma maneira de quantificar o esforço necessário para obter o alimento.
Agora estamos no século XXI e nosso consumidor de tomates se preocupa com o meio ambiente. Ele sabe que os tomates que vai comprar no supermercado, apesar de ainda conterem as mesmas vinte quilocalorias e custarem o equivalente a um minuto de trabalho, foram produzidos em uma fazenda distante do supermercado. No cultivo do fruto foram utilizados combustíveis fósseis tanto para produzir os fertilizantes e arar a terra quanto para colher e transportar o tomate até o mercado consumidor. Isto sem contar o plástico, o papel da embalagem e refrigeração. Os gastos de energia relacionados com a produção do tomate podem ser calculados, e assim é possível determinar o impacto da produção do tomate na liberação de CO2 na atmosfera e sua contribuição para o aquecimento global. Será que ainda vale à pena obter vinte quilocalorias de um tomate, se foram utilizadas quase trezentas quilocalorias em combustíveis fosseis para produzi-lo?
Ecólogos como o americano David Pimentel, da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, têm se dedicado a esses cálculos. A fim de produzir o alimento necessário para alimentar por um dia um americano médio, são utilizados 5,3 litros de petróleo, quase a mesma quantidade consumida pelo carro desse mesmo americano. Pimentel calcula que 17% do petróleo que se consome nos Estados Unidos são utilizados na produção de alimentos. Para produzir cada quilocaloria de proteína animal, utilizam-se quarenta quilocalorias oriundas de combustíveis fósseis. O que David Pimentel vem tentando demonstrar é que hoje, nos Estados Unidos, comer polui tanto quanto dirigir automóveis. E agora? Vale à pena comer um tomate? E quando acabar o petróleo, de onde virão os tomates?

 
Bibliografia:
Reinach, Fernando; A longa marcha dos grilos canibais. Cia das Letras, SP,2010
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